Circunvagando (1ª etapa)
Entre 7 e 20 de Fevº de 2011 andei resignadamente pelas veredas que separam a saúde de algo que merece um nome impreciso e leva-nos sabe-se lá onde. Experimentei um regime de antipiréticos, agasalho, inalações, méis e chás anti-tússicos; acompanhou tudo isto um médico que pretendeu evitar a pneumonia a um doente resignado e à mercê. Ora este último, no momento em que vê a febre recuar por força dum antibiótico, nota aquela dor num dedo do pé, que trepa ao tornozelo. Pé e tornozelo incham disfarçando-se de uma cor-de-rosa que não engana.
A coisa, dor, cor e inchaço dá pelo nome mesquinho de gota. A gota caracterizava os nobres ingleses e abrange não só vítimas inocentes como ainda os descuidados na ingestão de quase tudo o que dá especial deleite ao paladar. Considero-me entre os inocentes.
Quando o médico da fita recomenda a um Oliver Hardy tolhido por um pé de elefante que evite o “high living”, o companheiro Stan Laurel logo propõe que os dois se transfiram para a cave. Piadas assim aliviam-nos. O mais do enredo não vem para aqui chamado, mas o curioso é que, se o meu corpo convalescente não seguiu o alvitre de Laurel, o meu espírito subiu a outros andares: o das estrelas.
Pois achei mesmo na mornidão do quarto, entregue às minhas lucubrações, dois tipos de estrelas, um que me repugna, outro que me embalou a imaginação. No primeiro tipo depararam-se-me aqueles astros anões que se nutrem da influência política da estrela a cuja órbita se acolhem, e à sua sombra gozam benesses vitalícias e grossas impunidades. Pequenos asteróides de poeira e gelo, atracam a um partido, sugam o que podem, e julgam-se senhores de toda a constelação a que os prende a força gravitacional do interesse próprio. Aparentemente grandes, são realmente minúsculos.
Mas (oh! ai! ena! - sei lá!), mais importante, achei por acaso uma luzinha dos céus que, ao fim de tantos anos de eu a julgar uma estrela minúscula, se revelou uma galáxia de tremendo porte. À vista desarmada, fica ali à beira da Ursa Maior, ao ladinho da pega da concha onde se situam as estrelas Alkaid e Mizar, que são as primeiras. A gente esboça para cima um triângulo rectângulo isósceles que tem por hipotenusa o segmento que as une. Sensivelmente no vértice do ângulo recto, divisa-se o dito brilhozinho que mal se revela à vista desarmada.
Qualquer engripado encerraria por aqui a sua chateza.
Mas ao brilhozinho chamam-lhe os astrónomos M101. E agora o pasmo: trata-se da “galáxia Pinwheel”, monstro celeste muito maior do que a nossa Via Láctea. “Pinwheel” quer dizer “ventoinha”, como aquelas, de papel, que na minha infância eu punha a rodar ao vento espetadas num alfinete. Situa-se esta a 25 milhões de anos-luz da Terra. As sete estrelas principais da Ursa Maior distam do meu quarto uns “breves” 60 a 120 anos-luz. O “nosso” Sol, que nos ilumina os dias, prossegue esbaforido à bagatela de nove minutos.
Há, pois, coisas ínfimas que a nossa vista imperfeita considera enormes, a par de outras que tomamos por valiosas e não passam de flatulências.
Existirá um critério de medida universal? Como não há, julgamo-nos relevantes. Quem apenas vê o mundo pela epiderme vai medrando às escuras. Mas se alcança mais curiosas profundidades, retira inesperada linfa de desertos reais ou aparentes.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Kimbanda
“Tat’etu ki akexile m’ufua, kimbanda kiabokola ku bata dietu”
Acabara Januário de percorrer com a vista a folha amarelecida que dava a estas palavras um vislumbre de eternidade. Quedou-se em silêncio olhando pela janela daquele jeito de mal ver que antes se volta pensativamente para dentro.
Era o dia onze de Janeiro, e o ano 1967.
Na véspera, o céu de chumbo largara uma cortina de pétalas de neve como jamais se vira na cidade, e as crianças esculpiram em delírio bonecos pelas ruas, recreio que se afigurou a Januário a coisa mais despropositada.
Nisto soou o telefone. Que viesse, o pai estava a morrer. A incerteza durava há dias. E acudiram-lhe de novo à mente as palavras: Tat’etu ki akexile m’ufua…Falar Kimbundu perdido numa antigo caderno entre os papéis do que agora se despedia da vida. Significavam, por obscuro acaso: “Quando o meu pai estava a morrer, o curandeiro entrou em nossa casa”. Escritas havia sessenta anos, eram matéria gramatical no estudo de um funcionário público do começo do século vinte, pronto a derreter nas insalubridades da Guiné.
Pela manhã gélida, largou tudo e correu a casa do pai. Acha-o da cor do pergaminho, ligado ao oxigénio, os pulmões, enfim, a desistir. A mãe, meias palavras, os olhos inchados. Num canto retraído, chora a mulher de Januário.
Fora eu o curandeiro! Na meia obscuridade do quarto, ao moribundo o divino dom de recordar oferecer-lhe-ia o calor do Trópico, a sombra do imbondeiro, a tabanca de Bafatá, mais os fulgores da terra algarvia seu berço, tudo em confusa mescla de mil impressões. O desfile de vislumbres resume-se agora em nenhum espaço, esse espaço nenhum em que nós cabemos, maiores as nossas paixões do que o Universo, cada um criando o mundo ao jeito do próprio sentir. Kimbanda kiabokola ku bata dietu.
Num simples movimento da cabeça o médico dá a entender que está por pouco. O curandeiro não seria tão duro. Convocaria os espíritos, entes ocultos acudiriam à qualidade do sangue, ao vigor dos pulmões; e o coração haveria de ganhar um novo recobro.
O vento abana a persiana semicerrada, e Januário toma a mão do pai. Húmida e fria, dir-se-á que atende com um leve aperto. É como se anunciasse: “Rapaz, aqui estou enfim, eu, na fronteira”.
Na Guiné, pelo mês de Maio, chegavam os tornados que traziam um calor pegajoso. E era aquela quebreira, o quinino, as nozes de cola, a ipecacuanha. Januário, ainda bebé, experimentara a colónia deletéria e quase fora ceifado do colo da mãe para o ventre da terra dos espíritos arcanos. O vapor (o “Amboim”?, o “Alferrarede”? o “Cubango”? – que importa?) salvou-o no retorno aos ares temperados em seis dias de navegação.
“E se levantarem um pouco a cabeça…” A mulher de Januário sugere, compadecida.
“É o mesmo…”, fala a Medicina.
O curandeiro diria outra coisa. Onde pára o curandeiro? Nunca para ele seria o mesmo. Há forças ocultas, ora malévolas, ora benfazejas (ele sabe distingui-las) que basta chamá-las pelo nome.
Pronuncia o médico algo que não se entende, não por ser linguagem científica, mas porque a aflição turva o ouvido dos presentes. Talvez só o pai o oiça.
E acode, de tão longe que mal se diria pertencer-lhe, a mão agora exaurida que então, sábia a ensinar coisas, usava sobrevoar no mapa o paralelo dos 12 graus. É aqui. Percorre o arquipélago dos Bijagós, recorda a ilha das Galinhas, as palmeiras Dendé, a mancarra, o macaréu do Gêba, as tremuras do paludismo, os amigos que a perniciosa levara para sempre em tremuras e desfalecimentos, os bailes em que dançava a morna.
E havia mais acima a estrela Altair na ponta do dedo que o pai virava ao céu no acto de ensinar. Altair quer dizer “a que voa”, nome tão apropriado. O menino, então, julgava-a um buraco no céu por detrás do qual tremia a chama duma vela; agora é um sítio por onde o pai em breve voará e com ele o turbilhão de recordações.
Januário sente que ao morrer um homem é com ele um mundo que se perde: ficam uns retalhos na mente dos que consigo partilharam a vida, mas extingue-se o que dava forma à particular versão do mundo.
Contemplativo, o cão geme aos pés da cama. Ele percebe mais, pois alcança o que se não vê, ou ouve, ou cheira, ou na pele ao de leve se capta.
E então a neve pára de cair derretida no ar pelo bafo de Bissau e pelo vento morno que vem dos Bijagós.
Brandamente, desfalecidamente, gorgoleja na tubagem o oxigénio. Passa na rua o amolador puxando da flauta, a convidar os guarda-chuvas. Emite agora um som que nunca se lhe ouvira tão nítido: Tirularulari-Tirularilaru... Estranho é como a vida lá fora ignora o íntimo da gente e tudo lhe resulta igual.
Que sucede nestes últimos momentos que parecem tão indiferentes à vida de quem se despede?
Talvez o pai já nada sinta, pensa Januário.
Mas o mais leve, o que não requer esforço dum organismo que se esvai, persiste e fixa-se nas recordações. A vida é uma etapa, ou então não é nada. Pois que seja etapa numa caminhada que há-de conduzir à última e plena serenidade.
A estrela Altair, na constelação da Águia, fica a 17 anos-luz do quarto morno do desenlace, mas na mente do pai de Januário, o ali e o lá se fundem. Atinge-a o pensamento e regressa com um golpe de asa.
Mas eis que, vou jurar, define-se aos pés da cama o vulto do curandeiro: kimbanda. Enfim! É da raça biafada? É fula? Não importa. É um indivíduo de rosto longo cujas feições mal se distinguem no escuro da pele. Enverga uma camisa de zuarte, cobre-lhe a cabeça uma espécie de barrete frígio. Fala sem produzir palavra.
Parece o pai sorrir: é tarde e resta só um caminho.
E, de um golpe, encerram-se as contas, fecha-se o livro, pára o respirar, e a mão entreabre-se. Januário olha para os que rodeiam a cama, e o curandeiro esvai-se numa neblina. O pai já não está ali.
O amolador repete, pausadamente: Tirularulari-Tirularilaru. Aquele inverno vai-lhe de feição.
11 de Janeiro de 2004
Acabara Januário de percorrer com a vista a folha amarelecida que dava a estas palavras um vislumbre de eternidade. Quedou-se em silêncio olhando pela janela daquele jeito de mal ver que antes se volta pensativamente para dentro.
Era o dia onze de Janeiro, e o ano 1967.
Na véspera, o céu de chumbo largara uma cortina de pétalas de neve como jamais se vira na cidade, e as crianças esculpiram em delírio bonecos pelas ruas, recreio que se afigurou a Januário a coisa mais despropositada.
Nisto soou o telefone. Que viesse, o pai estava a morrer. A incerteza durava há dias. E acudiram-lhe de novo à mente as palavras: Tat’etu ki akexile m’ufua…Falar Kimbundu perdido numa antigo caderno entre os papéis do que agora se despedia da vida. Significavam, por obscuro acaso: “Quando o meu pai estava a morrer, o curandeiro entrou em nossa casa”. Escritas havia sessenta anos, eram matéria gramatical no estudo de um funcionário público do começo do século vinte, pronto a derreter nas insalubridades da Guiné.
Pela manhã gélida, largou tudo e correu a casa do pai. Acha-o da cor do pergaminho, ligado ao oxigénio, os pulmões, enfim, a desistir. A mãe, meias palavras, os olhos inchados. Num canto retraído, chora a mulher de Januário.
Fora eu o curandeiro! Na meia obscuridade do quarto, ao moribundo o divino dom de recordar oferecer-lhe-ia o calor do Trópico, a sombra do imbondeiro, a tabanca de Bafatá, mais os fulgores da terra algarvia seu berço, tudo em confusa mescla de mil impressões. O desfile de vislumbres resume-se agora em nenhum espaço, esse espaço nenhum em que nós cabemos, maiores as nossas paixões do que o Universo, cada um criando o mundo ao jeito do próprio sentir. Kimbanda kiabokola ku bata dietu.
Num simples movimento da cabeça o médico dá a entender que está por pouco. O curandeiro não seria tão duro. Convocaria os espíritos, entes ocultos acudiriam à qualidade do sangue, ao vigor dos pulmões; e o coração haveria de ganhar um novo recobro.
O vento abana a persiana semicerrada, e Januário toma a mão do pai. Húmida e fria, dir-se-á que atende com um leve aperto. É como se anunciasse: “Rapaz, aqui estou enfim, eu, na fronteira”.
Na Guiné, pelo mês de Maio, chegavam os tornados que traziam um calor pegajoso. E era aquela quebreira, o quinino, as nozes de cola, a ipecacuanha. Januário, ainda bebé, experimentara a colónia deletéria e quase fora ceifado do colo da mãe para o ventre da terra dos espíritos arcanos. O vapor (o “Amboim”?, o “Alferrarede”? o “Cubango”? – que importa?) salvou-o no retorno aos ares temperados em seis dias de navegação.
“E se levantarem um pouco a cabeça…” A mulher de Januário sugere, compadecida.
“É o mesmo…”, fala a Medicina.
O curandeiro diria outra coisa. Onde pára o curandeiro? Nunca para ele seria o mesmo. Há forças ocultas, ora malévolas, ora benfazejas (ele sabe distingui-las) que basta chamá-las pelo nome.
Pronuncia o médico algo que não se entende, não por ser linguagem científica, mas porque a aflição turva o ouvido dos presentes. Talvez só o pai o oiça.
E acode, de tão longe que mal se diria pertencer-lhe, a mão agora exaurida que então, sábia a ensinar coisas, usava sobrevoar no mapa o paralelo dos 12 graus. É aqui. Percorre o arquipélago dos Bijagós, recorda a ilha das Galinhas, as palmeiras Dendé, a mancarra, o macaréu do Gêba, as tremuras do paludismo, os amigos que a perniciosa levara para sempre em tremuras e desfalecimentos, os bailes em que dançava a morna.
E havia mais acima a estrela Altair na ponta do dedo que o pai virava ao céu no acto de ensinar. Altair quer dizer “a que voa”, nome tão apropriado. O menino, então, julgava-a um buraco no céu por detrás do qual tremia a chama duma vela; agora é um sítio por onde o pai em breve voará e com ele o turbilhão de recordações.
Januário sente que ao morrer um homem é com ele um mundo que se perde: ficam uns retalhos na mente dos que consigo partilharam a vida, mas extingue-se o que dava forma à particular versão do mundo.
Contemplativo, o cão geme aos pés da cama. Ele percebe mais, pois alcança o que se não vê, ou ouve, ou cheira, ou na pele ao de leve se capta.
E então a neve pára de cair derretida no ar pelo bafo de Bissau e pelo vento morno que vem dos Bijagós.
Brandamente, desfalecidamente, gorgoleja na tubagem o oxigénio. Passa na rua o amolador puxando da flauta, a convidar os guarda-chuvas. Emite agora um som que nunca se lhe ouvira tão nítido: Tirularulari-Tirularilaru... Estranho é como a vida lá fora ignora o íntimo da gente e tudo lhe resulta igual.
Que sucede nestes últimos momentos que parecem tão indiferentes à vida de quem se despede?
Talvez o pai já nada sinta, pensa Januário.
Mas o mais leve, o que não requer esforço dum organismo que se esvai, persiste e fixa-se nas recordações. A vida é uma etapa, ou então não é nada. Pois que seja etapa numa caminhada que há-de conduzir à última e plena serenidade.
A estrela Altair, na constelação da Águia, fica a 17 anos-luz do quarto morno do desenlace, mas na mente do pai de Januário, o ali e o lá se fundem. Atinge-a o pensamento e regressa com um golpe de asa.
Mas eis que, vou jurar, define-se aos pés da cama o vulto do curandeiro: kimbanda. Enfim! É da raça biafada? É fula? Não importa. É um indivíduo de rosto longo cujas feições mal se distinguem no escuro da pele. Enverga uma camisa de zuarte, cobre-lhe a cabeça uma espécie de barrete frígio. Fala sem produzir palavra.
Parece o pai sorrir: é tarde e resta só um caminho.
E, de um golpe, encerram-se as contas, fecha-se o livro, pára o respirar, e a mão entreabre-se. Januário olha para os que rodeiam a cama, e o curandeiro esvai-se numa neblina. O pai já não está ali.
O amolador repete, pausadamente: Tirularulari-Tirularilaru. Aquele inverno vai-lhe de feição.
11 de Janeiro de 2004
sábado, 20 de novembro de 2010
Haiku
O "Haiku" é um pequeníssimo poema da tradição japonesa, espécie de molécula verbal que busca exprimir-se mais pelo que insinua do que pelo efectivamente escrito. Há milhares de praticantes em todo o mundo. Escrevo às vezes o que imita pobremente um "haiku", mesmo que não obedeça à rigorosa métrica do género. Eis seis exemplares que têm a vantagem duma gestação fulminante:
O vento corre
pelo rio
... que se amarrota.
Passa no arvoredo
o som que ninguém ouve.
Será som?
Embora bruta,
a pedra traça no ar
sábia geometria.
Na pálpebra do poente
a última lágrima de luz.
Cada ano passado
é martelada
num amigo que se vai.
Vaza o mar com a maré
e o peixe ignora a razão.
O vento corre
pelo rio
... que se amarrota.
Passa no arvoredo
o som que ninguém ouve.
Será som?
Embora bruta,
a pedra traça no ar
sábia geometria.
Na pálpebra do poente
a última lágrima de luz.
Cada ano passado
é martelada
num amigo que se vai.
Vaza o mar com a maré
e o peixe ignora a razão.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Vivi em casas caiadas
Vivi em casas caiadas
No mais branco da açucena
Noutras verdes de pinheiro ou azuis do céu,
Ou sem cor para além da que eu sentia.
Houve nelas sombras, frios, calores
E gente querida que morria ou tal parecia.
E nelas a filosofia da vida foi ganhando forma
Com a lentidão da era no muro,
Ano após ano,
Linha a linha, dor a dor,
Pergunta a pergunta,
para nada.
No mais branco da açucena
Noutras verdes de pinheiro ou azuis do céu,
Ou sem cor para além da que eu sentia.
Houve nelas sombras, frios, calores
E gente querida que morria ou tal parecia.
E nelas a filosofia da vida foi ganhando forma
Com a lentidão da era no muro,
Ano após ano,
Linha a linha, dor a dor,
Pergunta a pergunta,
para nada.
Tu sabes lá o que há em Lagos!
Tu sabes lá
o que há em Lagos
para além mesmo do que julgas
que não há em Lagos!
Lagos não é só o que lá vês,
mas isso acrescido do sentido e da sombra
do que aos olhos te salta
e é o porquê disso
e de muito mais:
É a realidade submersa
e mais além,
esquecida a qual
isso seria aquilo
ou qualquer outra coisa,
mas nunca o que é.
Sem tal realidade submersa
o mar seria água,
a terra uma confusão mineral,
as casas um exercício frio
de arquitectura,
e o seu branco
um qualquer óxido de cálcio.
Os próprios cães seriam
quadrúpedes digitígrados,
ou pestes a abater
em vez dos prodígios
da minha meninice.
Posto o que, Lagos
se resumiria num repositório
de banalidades avulsas.
Ora se Lagos fosse
apenas um repositório de banalidades avulsas,
eu não teria lá nascido,
seria incapaz de ver
por lá
mais do que
a Química, a geometria,
a urbanística exterioridade,
e perderia o melhor do sabor da vida.
o que há em Lagos
para além mesmo do que julgas
que não há em Lagos!
Lagos não é só o que lá vês,
mas isso acrescido do sentido e da sombra
do que aos olhos te salta
e é o porquê disso
e de muito mais:
É a realidade submersa
e mais além,
esquecida a qual
isso seria aquilo
ou qualquer outra coisa,
mas nunca o que é.
Sem tal realidade submersa
o mar seria água,
a terra uma confusão mineral,
as casas um exercício frio
de arquitectura,
e o seu branco
um qualquer óxido de cálcio.
Os próprios cães seriam
quadrúpedes digitígrados,
ou pestes a abater
em vez dos prodígios
da minha meninice.
Posto o que, Lagos
se resumiria num repositório
de banalidades avulsas.
Ora se Lagos fosse
apenas um repositório de banalidades avulsas,
eu não teria lá nascido,
seria incapaz de ver
por lá
mais do que
a Química, a geometria,
a urbanística exterioridade,
e perderia o melhor do sabor da vida.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
kansha
Quero dar graças por haver nascido e por, tendo nascido, me
ser dado apurar o ânimo nos rigores da vida;
Quero dar graças por ter nascido onde nasci, pois que,
nascendo onde nasci, pude afeiçoar-me a um trecho de
amorável geografia e aos que lá enraizaram o seu destino;
Quero dar graças pela gentil simetria da flor que me aconteceu
no parapeito da janela, pois se uma semente invisível
gera tal prodígio, é vão o desespero;
Quero dar graças pelo tamanho das minhas dúvidas, pois que,
se fossem menores as dúvidas, eu estaria acaso
mais longe da Verdade e mais perto do orgulho;
Quero dar graças por não ter herdado ou ganho fortuna:
a frugalidade abre horizontes dentro de nós e desperta-nos
para as coisas eternas;
Quero dar graças pelo jeito que não perdi de sonhar, pois o sonho
fecunda a vida de um fertilizante que não morre;
Quero dar graças por aquela doença que, fechando-me em casa
por tempo desmedido, me ofereceu poder ler o que jamais
leria com tão frutuosa pausa;
Quero dar graças por ter visto em meu redor o aparente sucesso
da ambição e do embuste, pois fui-me dando conta de que
vitórias actuais podem significar derrotas adiadas;
Quero dar graças por ter achado nos caminhos da vida gente que
deturpou a minha boa intenção e disso retirou ganho.
Tornou-se-me, assim, mais claro que o verdadeiro Juiz
não é deste mundo;
Quero dar graças por quantos me usaram, e não raros, para atingir
os píncaros – cá em baixo poderei ampará-los na queda;
Quero dar graças pelo desamor radical aos penachos, por cujo brilho
tantos se mordem, pois que sem eles encontro a liberdade;
Quero dar graças porque, tendo o meu antigo clube, embora
moralmente vitorioso, perdido todos os jogos e a sua
Direcção o devido decoro, vivo hoje na maior
serenidade desportiva, não tendo clube nenhum;
Quero dar graças por haver números tão curiosos como
a raiz quadrada de menos dois,
e por aquela estrela azul ao endireito da galáxia M96,
e pelo binómio de Newton, pois
coisas assim embalam a imaginação
Quero dar graças por tudo o que na vida perdi sem remédio.
No vazio aparente que ficou pôde germinar uma nova esperança.
António José (aí pelos anos 80)
ser dado apurar o ânimo nos rigores da vida;
Quero dar graças por ter nascido onde nasci, pois que,
nascendo onde nasci, pude afeiçoar-me a um trecho de
amorável geografia e aos que lá enraizaram o seu destino;
Quero dar graças pela gentil simetria da flor que me aconteceu
no parapeito da janela, pois se uma semente invisível
gera tal prodígio, é vão o desespero;
Quero dar graças pelo tamanho das minhas dúvidas, pois que,
se fossem menores as dúvidas, eu estaria acaso
mais longe da Verdade e mais perto do orgulho;
Quero dar graças por não ter herdado ou ganho fortuna:
a frugalidade abre horizontes dentro de nós e desperta-nos
para as coisas eternas;
Quero dar graças pelo jeito que não perdi de sonhar, pois o sonho
fecunda a vida de um fertilizante que não morre;
Quero dar graças por aquela doença que, fechando-me em casa
por tempo desmedido, me ofereceu poder ler o que jamais
leria com tão frutuosa pausa;
Quero dar graças por ter visto em meu redor o aparente sucesso
da ambição e do embuste, pois fui-me dando conta de que
vitórias actuais podem significar derrotas adiadas;
Quero dar graças por ter achado nos caminhos da vida gente que
deturpou a minha boa intenção e disso retirou ganho.
Tornou-se-me, assim, mais claro que o verdadeiro Juiz
não é deste mundo;
Quero dar graças por quantos me usaram, e não raros, para atingir
os píncaros – cá em baixo poderei ampará-los na queda;
Quero dar graças pelo desamor radical aos penachos, por cujo brilho
tantos se mordem, pois que sem eles encontro a liberdade;
Quero dar graças porque, tendo o meu antigo clube, embora
moralmente vitorioso, perdido todos os jogos e a sua
Direcção o devido decoro, vivo hoje na maior
serenidade desportiva, não tendo clube nenhum;
Quero dar graças por haver números tão curiosos como
a raiz quadrada de menos dois,
e por aquela estrela azul ao endireito da galáxia M96,
e pelo binómio de Newton, pois
coisas assim embalam a imaginação
Quero dar graças por tudo o que na vida perdi sem remédio.
No vazio aparente que ficou pôde germinar uma nova esperança.
António José (aí pelos anos 80)
sábado, 8 de maio de 2010
Escrevo, logo existo.
Nada acrescento neste meu blog há um bom par de meses. Ando entretanto às voltas com um livro de contos a que chamei "O Largar da Pena" e outro, uma autobiografia que leva o nome de "De vento em proa". Nenhum deles tentarei encaminhar para qualquer das editoras da nossa praça. Já por elas lancei no mercado sete livros, três científicos e quatro de ficção. Isto, ao longo de uns vinte anos. Agora basta. O sete é um número mítico; não digo porquê -- quem o estranhar que se informe. Pois reduzo-me (ou amplio-me), agora, à condição de autor e editor: autor que se compraz no mero acto de escrever, editor no sentido de confeccionar domesticamente reservatórios de textos impressos que não visam o mercado. Deste modo se livram textos e autor de valerem mormente pelo que rendem nas máquinas registadoras.
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