“Tat’etu ki akexile m’ufua, kimbanda kiabokola ku bata dietu”
Acabara Januário de percorrer com a vista a folha amarelecida que dava a estas palavras um vislumbre de eternidade. Quedou-se em silêncio olhando pela janela daquele jeito de mal ver que antes se volta pensativamente para dentro.
Era o dia onze de Janeiro, e o ano 1967.
Na véspera, o céu de chumbo largara uma cortina de pétalas de neve como jamais se vira na cidade, e as crianças esculpiram em delírio bonecos pelas ruas, recreio que se afigurou a Januário a coisa mais despropositada.
Nisto soou o telefone. Que viesse, o pai estava a morrer. A incerteza durava há dias. E acudiram-lhe de novo à mente as palavras: Tat’etu ki akexile m’ufua…Falar Kimbundu perdido numa antigo caderno entre os papéis do que agora se despedia da vida. Significavam, por obscuro acaso: “Quando o meu pai estava a morrer, o curandeiro entrou em nossa casa”. Escritas havia sessenta anos, eram matéria gramatical no estudo de um funcionário público do começo do século vinte, pronto a derreter nas insalubridades da Guiné.
Pela manhã gélida, largou tudo e correu a casa do pai. Acha-o da cor do pergaminho, ligado ao oxigénio, os pulmões, enfim, a desistir. A mãe, meias palavras, os olhos inchados. Num canto retraído, chora a mulher de Januário.
Fora eu o curandeiro! Na meia obscuridade do quarto, ao moribundo o divino dom de recordar oferecer-lhe-ia o calor do Trópico, a sombra do imbondeiro, a tabanca de Bafatá, mais os fulgores da terra algarvia seu berço, tudo em confusa mescla de mil impressões. O desfile de vislumbres resume-se agora em nenhum espaço, esse espaço nenhum em que nós cabemos, maiores as nossas paixões do que o Universo, cada um criando o mundo ao jeito do próprio sentir. Kimbanda kiabokola ku bata dietu.
Num simples movimento da cabeça o médico dá a entender que está por pouco. O curandeiro não seria tão duro. Convocaria os espíritos, entes ocultos acudiriam à qualidade do sangue, ao vigor dos pulmões; e o coração haveria de ganhar um novo recobro.
O vento abana a persiana semicerrada, e Januário toma a mão do pai. Húmida e fria, dir-se-á que atende com um leve aperto. É como se anunciasse: “Rapaz, aqui estou enfim, eu, na fronteira”.
Na Guiné, pelo mês de Maio, chegavam os tornados que traziam um calor pegajoso. E era aquela quebreira, o quinino, as nozes de cola, a ipecacuanha. Januário, ainda bebé, experimentara a colónia deletéria e quase fora ceifado do colo da mãe para o ventre da terra dos espíritos arcanos. O vapor (o “Amboim”?, o “Alferrarede”? o “Cubango”? – que importa?) salvou-o no retorno aos ares temperados em seis dias de navegação.
“E se levantarem um pouco a cabeça…” A mulher de Januário sugere, compadecida.
“É o mesmo…”, fala a Medicina.
O curandeiro diria outra coisa. Onde pára o curandeiro? Nunca para ele seria o mesmo. Há forças ocultas, ora malévolas, ora benfazejas (ele sabe distingui-las) que basta chamá-las pelo nome.
Pronuncia o médico algo que não se entende, não por ser linguagem científica, mas porque a aflição turva o ouvido dos presentes. Talvez só o pai o oiça.
E acode, de tão longe que mal se diria pertencer-lhe, a mão agora exaurida que então, sábia a ensinar coisas, usava sobrevoar no mapa o paralelo dos 12 graus. É aqui. Percorre o arquipélago dos Bijagós, recorda a ilha das Galinhas, as palmeiras Dendé, a mancarra, o macaréu do Gêba, as tremuras do paludismo, os amigos que a perniciosa levara para sempre em tremuras e desfalecimentos, os bailes em que dançava a morna.
E havia mais acima a estrela Altair na ponta do dedo que o pai virava ao céu no acto de ensinar. Altair quer dizer “a que voa”, nome tão apropriado. O menino, então, julgava-a um buraco no céu por detrás do qual tremia a chama duma vela; agora é um sítio por onde o pai em breve voará e com ele o turbilhão de recordações.
Januário sente que ao morrer um homem é com ele um mundo que se perde: ficam uns retalhos na mente dos que consigo partilharam a vida, mas extingue-se o que dava forma à particular versão do mundo.
Contemplativo, o cão geme aos pés da cama. Ele percebe mais, pois alcança o que se não vê, ou ouve, ou cheira, ou na pele ao de leve se capta.
E então a neve pára de cair derretida no ar pelo bafo de Bissau e pelo vento morno que vem dos Bijagós.
Brandamente, desfalecidamente, gorgoleja na tubagem o oxigénio. Passa na rua o amolador puxando da flauta, a convidar os guarda-chuvas. Emite agora um som que nunca se lhe ouvira tão nítido: Tirularulari-Tirularilaru... Estranho é como a vida lá fora ignora o íntimo da gente e tudo lhe resulta igual.
Que sucede nestes últimos momentos que parecem tão indiferentes à vida de quem se despede?
Talvez o pai já nada sinta, pensa Januário.
Mas o mais leve, o que não requer esforço dum organismo que se esvai, persiste e fixa-se nas recordações. A vida é uma etapa, ou então não é nada. Pois que seja etapa numa caminhada que há-de conduzir à última e plena serenidade.
A estrela Altair, na constelação da Águia, fica a 17 anos-luz do quarto morno do desenlace, mas na mente do pai de Januário, o ali e o lá se fundem. Atinge-a o pensamento e regressa com um golpe de asa.
Mas eis que, vou jurar, define-se aos pés da cama o vulto do curandeiro: kimbanda. Enfim! É da raça biafada? É fula? Não importa. É um indivíduo de rosto longo cujas feições mal se distinguem no escuro da pele. Enverga uma camisa de zuarte, cobre-lhe a cabeça uma espécie de barrete frígio. Fala sem produzir palavra.
Parece o pai sorrir: é tarde e resta só um caminho.
E, de um golpe, encerram-se as contas, fecha-se o livro, pára o respirar, e a mão entreabre-se. Januário olha para os que rodeiam a cama, e o curandeiro esvai-se numa neblina. O pai já não está ali.
O amolador repete, pausadamente: Tirularulari-Tirularilaru. Aquele inverno vai-lhe de feição.
11 de Janeiro de 2004
sábado, 29 de janeiro de 2011
sábado, 20 de novembro de 2010
Haiku
O "Haiku" é um pequeníssimo poema da tradição japonesa, espécie de molécula verbal que busca exprimir-se mais pelo que insinua do que pelo efectivamente escrito. Há milhares de praticantes em todo o mundo. Escrevo às vezes o que imita pobremente um "haiku", mesmo que não obedeça à rigorosa métrica do género. Eis seis exemplares que têm a vantagem duma gestação fulminante:
O vento corre
pelo rio
... que se amarrota.
Passa no arvoredo
o som que ninguém ouve.
Será som?
Embora bruta,
a pedra traça no ar
sábia geometria.
Na pálpebra do poente
a última lágrima de luz.
Cada ano passado
é martelada
num amigo que se vai.
Vaza o mar com a maré
e o peixe ignora a razão.
O vento corre
pelo rio
... que se amarrota.
Passa no arvoredo
o som que ninguém ouve.
Será som?
Embora bruta,
a pedra traça no ar
sábia geometria.
Na pálpebra do poente
a última lágrima de luz.
Cada ano passado
é martelada
num amigo que se vai.
Vaza o mar com a maré
e o peixe ignora a razão.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Vivi em casas caiadas
Vivi em casas caiadas
No mais branco da açucena
Noutras verdes de pinheiro ou azuis do céu,
Ou sem cor para além da que eu sentia.
Houve nelas sombras, frios, calores
E gente querida que morria ou tal parecia.
E nelas a filosofia da vida foi ganhando forma
Com a lentidão da era no muro,
Ano após ano,
Linha a linha, dor a dor,
Pergunta a pergunta,
para nada.
No mais branco da açucena
Noutras verdes de pinheiro ou azuis do céu,
Ou sem cor para além da que eu sentia.
Houve nelas sombras, frios, calores
E gente querida que morria ou tal parecia.
E nelas a filosofia da vida foi ganhando forma
Com a lentidão da era no muro,
Ano após ano,
Linha a linha, dor a dor,
Pergunta a pergunta,
para nada.
Tu sabes lá o que há em Lagos!
Tu sabes lá
o que há em Lagos
para além mesmo do que julgas
que não há em Lagos!
Lagos não é só o que lá vês,
mas isso acrescido do sentido e da sombra
do que aos olhos te salta
e é o porquê disso
e de muito mais:
É a realidade submersa
e mais além,
esquecida a qual
isso seria aquilo
ou qualquer outra coisa,
mas nunca o que é.
Sem tal realidade submersa
o mar seria água,
a terra uma confusão mineral,
as casas um exercício frio
de arquitectura,
e o seu branco
um qualquer óxido de cálcio.
Os próprios cães seriam
quadrúpedes digitígrados,
ou pestes a abater
em vez dos prodígios
da minha meninice.
Posto o que, Lagos
se resumiria num repositório
de banalidades avulsas.
Ora se Lagos fosse
apenas um repositório de banalidades avulsas,
eu não teria lá nascido,
seria incapaz de ver
por lá
mais do que
a Química, a geometria,
a urbanística exterioridade,
e perderia o melhor do sabor da vida.
o que há em Lagos
para além mesmo do que julgas
que não há em Lagos!
Lagos não é só o que lá vês,
mas isso acrescido do sentido e da sombra
do que aos olhos te salta
e é o porquê disso
e de muito mais:
É a realidade submersa
e mais além,
esquecida a qual
isso seria aquilo
ou qualquer outra coisa,
mas nunca o que é.
Sem tal realidade submersa
o mar seria água,
a terra uma confusão mineral,
as casas um exercício frio
de arquitectura,
e o seu branco
um qualquer óxido de cálcio.
Os próprios cães seriam
quadrúpedes digitígrados,
ou pestes a abater
em vez dos prodígios
da minha meninice.
Posto o que, Lagos
se resumiria num repositório
de banalidades avulsas.
Ora se Lagos fosse
apenas um repositório de banalidades avulsas,
eu não teria lá nascido,
seria incapaz de ver
por lá
mais do que
a Química, a geometria,
a urbanística exterioridade,
e perderia o melhor do sabor da vida.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
kansha
Quero dar graças por haver nascido e por, tendo nascido, me
ser dado apurar o ânimo nos rigores da vida;
Quero dar graças por ter nascido onde nasci, pois que,
nascendo onde nasci, pude afeiçoar-me a um trecho de
amorável geografia e aos que lá enraizaram o seu destino;
Quero dar graças pela gentil simetria da flor que me aconteceu
no parapeito da janela, pois se uma semente invisível
gera tal prodígio, é vão o desespero;
Quero dar graças pelo tamanho das minhas dúvidas, pois que,
se fossem menores as dúvidas, eu estaria acaso
mais longe da Verdade e mais perto do orgulho;
Quero dar graças por não ter herdado ou ganho fortuna:
a frugalidade abre horizontes dentro de nós e desperta-nos
para as coisas eternas;
Quero dar graças pelo jeito que não perdi de sonhar, pois o sonho
fecunda a vida de um fertilizante que não morre;
Quero dar graças por aquela doença que, fechando-me em casa
por tempo desmedido, me ofereceu poder ler o que jamais
leria com tão frutuosa pausa;
Quero dar graças por ter visto em meu redor o aparente sucesso
da ambição e do embuste, pois fui-me dando conta de que
vitórias actuais podem significar derrotas adiadas;
Quero dar graças por ter achado nos caminhos da vida gente que
deturpou a minha boa intenção e disso retirou ganho.
Tornou-se-me, assim, mais claro que o verdadeiro Juiz
não é deste mundo;
Quero dar graças por quantos me usaram, e não raros, para atingir
os píncaros – cá em baixo poderei ampará-los na queda;
Quero dar graças pelo desamor radical aos penachos, por cujo brilho
tantos se mordem, pois que sem eles encontro a liberdade;
Quero dar graças porque, tendo o meu antigo clube, embora
moralmente vitorioso, perdido todos os jogos e a sua
Direcção o devido decoro, vivo hoje na maior
serenidade desportiva, não tendo clube nenhum;
Quero dar graças por haver números tão curiosos como
a raiz quadrada de menos dois,
e por aquela estrela azul ao endireito da galáxia M96,
e pelo binómio de Newton, pois
coisas assim embalam a imaginação
Quero dar graças por tudo o que na vida perdi sem remédio.
No vazio aparente que ficou pôde germinar uma nova esperança.
António José (aí pelos anos 80)
ser dado apurar o ânimo nos rigores da vida;
Quero dar graças por ter nascido onde nasci, pois que,
nascendo onde nasci, pude afeiçoar-me a um trecho de
amorável geografia e aos que lá enraizaram o seu destino;
Quero dar graças pela gentil simetria da flor que me aconteceu
no parapeito da janela, pois se uma semente invisível
gera tal prodígio, é vão o desespero;
Quero dar graças pelo tamanho das minhas dúvidas, pois que,
se fossem menores as dúvidas, eu estaria acaso
mais longe da Verdade e mais perto do orgulho;
Quero dar graças por não ter herdado ou ganho fortuna:
a frugalidade abre horizontes dentro de nós e desperta-nos
para as coisas eternas;
Quero dar graças pelo jeito que não perdi de sonhar, pois o sonho
fecunda a vida de um fertilizante que não morre;
Quero dar graças por aquela doença que, fechando-me em casa
por tempo desmedido, me ofereceu poder ler o que jamais
leria com tão frutuosa pausa;
Quero dar graças por ter visto em meu redor o aparente sucesso
da ambição e do embuste, pois fui-me dando conta de que
vitórias actuais podem significar derrotas adiadas;
Quero dar graças por ter achado nos caminhos da vida gente que
deturpou a minha boa intenção e disso retirou ganho.
Tornou-se-me, assim, mais claro que o verdadeiro Juiz
não é deste mundo;
Quero dar graças por quantos me usaram, e não raros, para atingir
os píncaros – cá em baixo poderei ampará-los na queda;
Quero dar graças pelo desamor radical aos penachos, por cujo brilho
tantos se mordem, pois que sem eles encontro a liberdade;
Quero dar graças porque, tendo o meu antigo clube, embora
moralmente vitorioso, perdido todos os jogos e a sua
Direcção o devido decoro, vivo hoje na maior
serenidade desportiva, não tendo clube nenhum;
Quero dar graças por haver números tão curiosos como
a raiz quadrada de menos dois,
e por aquela estrela azul ao endireito da galáxia M96,
e pelo binómio de Newton, pois
coisas assim embalam a imaginação
Quero dar graças por tudo o que na vida perdi sem remédio.
No vazio aparente que ficou pôde germinar uma nova esperança.
António José (aí pelos anos 80)
sábado, 8 de maio de 2010
Escrevo, logo existo.
Nada acrescento neste meu blog há um bom par de meses. Ando entretanto às voltas com um livro de contos a que chamei "O Largar da Pena" e outro, uma autobiografia que leva o nome de "De vento em proa". Nenhum deles tentarei encaminhar para qualquer das editoras da nossa praça. Já por elas lancei no mercado sete livros, três científicos e quatro de ficção. Isto, ao longo de uns vinte anos. Agora basta. O sete é um número mítico; não digo porquê -- quem o estranhar que se informe. Pois reduzo-me (ou amplio-me), agora, à condição de autor e editor: autor que se compraz no mero acto de escrever, editor no sentido de confeccionar domesticamente reservatórios de textos impressos que não visam o mercado. Deste modo se livram textos e autor de valerem mormente pelo que rendem nas máquinas registadoras.
sexta-feira, 5 de março de 2010
Leandro
O Leandro Filipe, de Mirandela, suicidou-se. Tinha doze anos, a um passo de entrar na adolescência, fase em que principiam a tomar forma as primeiras esperanças conscientes. Ele perdeu assim todo o direito a deixá-las florir. Mataram-no os colegas? Matou-o a sociedade. Os pensadores simplistas ora atribuirão as culpas aos colegas, ora aos pais dos colegas e da vítima, ora aos professores (pau para toda a colher), ora às autoridades. Alguns espanam a consciência no pensamento anestesiante de que “são coisas de crianças”, e encolhem os ombros.
Ora toda a sociedade tem culpa ao acomodar-se a um tipo de civilização que se nutre de heróis de pacotilha e de índices de popularidade baseada no êxito a qualquer preço e inspirada pelas coisas mais fúteis. É a fúria do ganho material e do egoísmo. O herói, para a generalidade do público, não é o que se notabiliza pela virtude ou pelo saber. Tais paradigmas não vendem nem entusiasmam.
Nos filmes e jogos de computador (e que dizer do próprio desporto?), prolifera a violência. O “herói” entra a descascar nos inimigos com golpes físicos e de astúcia que não olham a meios. Escorrem o sangue, o sexo e o embuste, e o artista converte-se no símbolo da vitória. Ainda que porventura mate e esfole com o mero propósito (humanitário) de punir um bandido – e há uma moralidade no fundo do túnel -- , o que sobressai e encanta em particular o jovem é a eficácia da metodologia na qual a violência se tornou um meio salutar. Caiu-se na banalização da morte e numa indiferença crescente perante a brutalidade física e psicológica. Vejam-se, por exemplo, duas versões do mesmo filme, uma na década de quarenta do século passado, outra já no virar para o século actual. As mesmas aleivosias que dantes meramente se insinuavam, e tanto bastava para o bom entendimento, hoje ganham toda a cruel expressão do espancamento, da cópula explícita, do sangue que esguicha e das expressões de terror que os próprios efeitos especiais se ocupam não raro de tornar mais chocantes.
A juventude aproveita-se da quebra de autoridade dos pais e da debilitação dos laços familiares. Assimila tudo o que a excita, e demonstra uma fraqueza inata para se deixar jogar como peões no xadrez dos negócios que, evidentemente, visam o ganho: digere mistelas do pior porque a publicidade a inebria, aceita com crescente naturalidade o desforço por quaisquer meios, odeia ser “perdedora” numa sociedade que endeusa o “ganhador”.
E a escola, que economizou no pessoal auxiliar e deu à juventude as liberdades democráticas de usar e abusar no caminho da facilidade, manifesta-se por um tempo penalizada por estas “coisas de crianças” e acaba por encolher os ombros, pondo um remendo de ocasião num pano que ela e a sociedade deixaram apodrecer.
Dirão que o “bullying” (esta prosápia anglófona!) sempre existiu. Na nossa juventude, a malta escolar “cascava” estouvadamente. Mas é precisa uma boa dose de cegueira e imprecisão nos conceitos para comparar as situações.
Desculpa, Leandro. Vieste ao mundo, mas o mundo não te mereceu.
Ora toda a sociedade tem culpa ao acomodar-se a um tipo de civilização que se nutre de heróis de pacotilha e de índices de popularidade baseada no êxito a qualquer preço e inspirada pelas coisas mais fúteis. É a fúria do ganho material e do egoísmo. O herói, para a generalidade do público, não é o que se notabiliza pela virtude ou pelo saber. Tais paradigmas não vendem nem entusiasmam.
Nos filmes e jogos de computador (e que dizer do próprio desporto?), prolifera a violência. O “herói” entra a descascar nos inimigos com golpes físicos e de astúcia que não olham a meios. Escorrem o sangue, o sexo e o embuste, e o artista converte-se no símbolo da vitória. Ainda que porventura mate e esfole com o mero propósito (humanitário) de punir um bandido – e há uma moralidade no fundo do túnel -- , o que sobressai e encanta em particular o jovem é a eficácia da metodologia na qual a violência se tornou um meio salutar. Caiu-se na banalização da morte e numa indiferença crescente perante a brutalidade física e psicológica. Vejam-se, por exemplo, duas versões do mesmo filme, uma na década de quarenta do século passado, outra já no virar para o século actual. As mesmas aleivosias que dantes meramente se insinuavam, e tanto bastava para o bom entendimento, hoje ganham toda a cruel expressão do espancamento, da cópula explícita, do sangue que esguicha e das expressões de terror que os próprios efeitos especiais se ocupam não raro de tornar mais chocantes.
A juventude aproveita-se da quebra de autoridade dos pais e da debilitação dos laços familiares. Assimila tudo o que a excita, e demonstra uma fraqueza inata para se deixar jogar como peões no xadrez dos negócios que, evidentemente, visam o ganho: digere mistelas do pior porque a publicidade a inebria, aceita com crescente naturalidade o desforço por quaisquer meios, odeia ser “perdedora” numa sociedade que endeusa o “ganhador”.
E a escola, que economizou no pessoal auxiliar e deu à juventude as liberdades democráticas de usar e abusar no caminho da facilidade, manifesta-se por um tempo penalizada por estas “coisas de crianças” e acaba por encolher os ombros, pondo um remendo de ocasião num pano que ela e a sociedade deixaram apodrecer.
Dirão que o “bullying” (esta prosápia anglófona!) sempre existiu. Na nossa juventude, a malta escolar “cascava” estouvadamente. Mas é precisa uma boa dose de cegueira e imprecisão nos conceitos para comparar as situações.
Desculpa, Leandro. Vieste ao mundo, mas o mundo não te mereceu.
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